Insônia e Apneia do Sono Juntas: o que é a COMISA e por que isso muda o tratamento
COMISA é a coexistência de insônia e apneia obstrutiva do sono no mesmo paciente. Entenda por que tratar só uma das duas costuma falhar, e como funciona o tratamento combinado.
Conteúdo escrito e revisado por Dr. Guilherme Lima, cirurgião bucomaxilofacial (CRO-RJ 38327), membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Sono. As informações deste artigo são educativas e não substituem avaliação individualizada.
Insônia e apneia obstrutiva do sono parecem, à primeira vista, problemas opostos — uma é dificuldade de dormir, a outra é uma via aérea que colapsa durante o sono. Mas os dois podem, e frequentemente coexistem no mesmo paciente. Esse quadro tem nome na literatura médica: COMISA (Comorbid Insomnia and Sleep Apnea, ou insônia e apneia do sono comórbidas). Entender essa combinação muda completamente a forma de tratar.
O que é a COMISA?
COMISA é a presença simultânea de insônia clínica (dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou despertar precoce, com impacto diurno) e apneia obstrutiva do sono confirmada por polissonografia, no mesmo paciente. Não é uma coincidência rara: estudos em clínicas de sono estimam que uma parcela expressiva dos pacientes com apneia obstrutiva do sono também preenche critérios para insônia clinicamente significativa (Sweetman A et al., Sleep Medicine Reviews, 2017).
Por que insônia e apneia costumam andar juntas?
A relação é bidirecional. Os microdespertares causados pelos eventos respiratórios da apneia fragmentam o sono e podem gerar hiperalerta noturno — a pessoa passa a associar a cama a um ambiente de sono ruim, um dos mecanismos centrais da insônia crônica. Por outro lado, a ansiedade e a hipervigilância da insônia podem alterar o tônus muscular da via aérea e a resposta a microdespertares, potencialmente agravando os eventos obstrutivos.
Dr. Guilherme Lima: "É comum o paciente relatar que 'não consegue dormir' e nunca ter sido investigado para apneia, porque o sintoma mais visível é a insônia. Só que, se a causa de fundo é uma apneia não diagnosticada, tratar apenas a insônia com medicação para dormir pode piorar o quadro respiratório."
Por que tratar só uma das duas costuma falhar?
Esse é o ponto mais importante da COMISA: tratar isoladamente qualquer uma das duas condições tende a ter resultado parcial ou insuficiente.
- Tratar só a insônia com sedativos/hipnóticos: pode relaxar ainda mais a musculatura da via aérea superior, piorando os eventos de apneia — um risco que precisa ser avaliado antes de prescrever qualquer medicação para dormir em quem tem apneia não tratada.
- Tratar só a apneia com CPAP, sem abordar a insônia: pacientes com COMISA têm taxas mais baixas de adesão ao CPAP do que pacientes com apneia isolada — a dificuldade prévia de "aceitar" o sono torna mais difícil tolerar um equipamento novo à noite (Sweetman A et al., Sleep, 2019).
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico de COMISA exige investigar as duas condições de forma independente — uma não substitui a avaliação da outra:
- Para apneia: polissonografia, que mede o Índice de Apneias e Hipopneias (IAH) e confirma gravidade.
- Para insônia: avaliação clínica dos critérios de insônia (dificuldade para iniciar/manter o sono, ou despertar precoce, com prejuízo diurno, pelo menos 3 vezes por semana por 3 meses ou mais), muitas vezes com apoio de questionários validados.
Pacientes que chegam com queixa de insônia e têm fatores de risco para apneia — ronco, sobrepeso, pescoço largo, sonolência diurna apesar da dificuldade para dormir — merecem investigação para as duas condições, não só uma.
Como funciona o tratamento combinado
O tratamento de referência para COMISA combina abordagens para as duas condições, geralmente em sequência ou em paralelo:
| Condição | Tratamento de primeira linha |
|---|---|
| Insônia | Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) — não medicamentosa, primeira escolha nas diretrizes internacionais |
| Apneia leve a moderada | Aparelho intraoral de avanço mandibular |
| Apneia moderada a grave | CPAP, com acompanhamento próximo de adaptação |
Um estudo controlado randomizado mostrou que iniciar a TCC-I antes do CPAP em pacientes com COMISA melhorou a adesão ao CPAP nas semanas seguintes, em comparação a começar o CPAP isoladamente (Sweetman A et al., Sleep, 2019) — reforçando que tratar a insônia primeiro pode facilitar, e não atrasar, o tratamento da apneia.
Perguntas frequentes
Insônia pode causar apneia do sono? Não diretamente, mas a hipervigilância e a fragmentação do sono da insônia podem interagir com a fisiologia respiratória durante o sono, dificultando o diagnóstico e o tratamento quando as duas condições coexistem.
Remédio para dormir é seguro se eu tenho apneia? Alguns sedativos podem relaxar a musculatura da via aérea e agravar a apneia não tratada. Qualquer medicação para insônia deve ser avaliada em conjunto com o diagnóstico (ou investigação) de apneia.
Preciso tratar as duas condições ao mesmo tempo? Nem sempre ao mesmo tempo, mas sempre as duas — estudos mostram que abordar a insônia primeiro pode até melhorar a adesão ao tratamento da apneia depois.
Como sei se tenho as duas condições? Só uma avaliação clínica combinada com polissonografia confirma. Se você tem insônia e também ronca, tem sobrepeso ou sonolência diurna, vale investigar as duas.
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Escrito e revisado por Dr. Guilherme Lima — Cirurgião Bucomaxilofacial (CRO-RJ 38327). Pós-graduado em Medicina do Sono pelo ISono/EPM-UNIFESP e em Tratamento do Ronco pelo Instituto Hospital Israelita Albert Einstein. Graduado pela FO-USP. Mestre em Ciências Médicas pela UERJ.
Publicado em: julho/2026 | Revisão clínica: julho/2026
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