Escala de Epworth: o que é, como fazer o teste de sonolência e o que o resultado significa
A Escala de Epworth é o teste mais usado para medir sonolência diurna e rastrear apneia do sono. Veja como aplicar, pontuar e interpretar o resultado.
Conteúdo escrito e revisado por Dr. Guilherme Lima, cirurgião bucomaxilofacial (CRO-RJ 38327), membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Sono. As informações deste artigo são educativas e não substituem avaliação individualizada.
Você acorda cansado mesmo depois de dormir a noite inteira, cochila em reuniões ou sente que vai "pegar no sono" assistindo TV? Antes de marcar uma consulta, a maioria das pessoas busca primeiro um jeito de medir isso — e o instrumento mais usado no mundo para essa autoavaliação é a Escala de Epworth. Neste guia, explico o que ela mede, como responder ao questionário completo, como interpretar a pontuação e, principalmente, o que ela não substitui. Se você mora no Rio de Janeiro e desconfia que a sua sonolência vai além do cansaço comum, este teste é um bom ponto de partida antes de agendar uma avaliação.
O que é a Escala de Epworth?
A Escala de Epworth (Epworth Sleepiness Scale, ESS) é um questionário de autoavaliação com oito perguntas que mede a chance de você cochilar em situações do dia a dia, gerando uma pontuação de 0 a 24 usada como triagem inicial de sonolência excessiva diurna. Foi criada em 1991 pelo médico australiano Murray Johns e é hoje um dos instrumentos mais citados da medicina do sono em todo o mundo (Johns MW, Sleep, 1991, DOI).
Como fazer o teste da Escala de Epworth
O questionário pergunta, para cada uma de oito situações comuns do dia a dia, qual a chance real de você cochilar ou dormir — não apenas se sentir cansado. Para cada item, a pontuação vai de 0 (nenhuma chance de cochilar) a 3 (alta chance de cochilar):
- Sentado e lendo
- Assistindo TV
- Sentado, quieto, em um lugar público (cinema, teatro, reunião)
- Como passageiro de carro por uma hora sem parar
- Deitado para descansar à tarde, quando as circunstâncias permitem
- Sentado conversando com alguém
- Sentado calmamente depois de um almoço sem álcool
- Parado no trânsito por alguns minutos, dirigindo
Some a pontuação das oito respostas para chegar ao resultado final, que varia de 0 a 24 pontos.
Como interpretar o resultado da Escala de Epworth
Pontuações mais altas indicam maior chance de cochilar nas situações listadas — ou seja, maior sonolência diurna. Na convenção clínica derivada da escala original, valores a partir de 10 já costumam ser considerados sugestivos de sonolência excessiva e justificam uma avaliação mais aprofundada (Johns MW, Sleep, 1991, DOI):
- 0 a 7 pontos: sonolência diurna dentro da faixa considerada normal.
- 8 a 9 pontos: sonolência diurna média, próxima da faixa de referência da população geral.
- 10 a 15 pontos: sonolência excessiva leve a moderada — sugere investigação.
- 16 a 24 pontos: sonolência excessiva importante — investigação prioritária.
Um detalhe que costuma passar despercebido: pacientes com apneia tendem a subestimar a própria sonolência quando avaliada de forma isolada, antes do diagnóstico. Estudo prospectivo com 66 pacientes em tratamento com CPAP mostrou que a pontuação da Escala de Epworth relatada retrospectivamente — já com noção mais clara de "como era antes" — foi, em média, 3,55 pontos mais alta do que a pontuação relatada no primeiro atendimento, o que indica que o próprio paciente frequentemente subestima a gravidade da sonolência antes de iniciar o tratamento (Guimarães C et al., Revista Portuguesa de Pneumologia, 2012, DOI).
A Escala de Epworth diagnostica apneia do sono sozinha?
Não. A Escala de Epworth é um instrumento de triagem — mede a percepção subjetiva de sonolência, não o número de eventos respiratórios durante o sono. Uma pontuação baixa não descarta apneia, e uma pontuação alta não confirma o diagnóstico: a confirmação exige exame do sono (polissonografia ou poligrafia residencial).
Meta-análise que reuniu 108 estudos e quase 48 mil participantes comparou a acurácia diagnóstica de quatro questionários de triagem para apneia obstrutiva do sono — Berlim, STOP, STOP-Bang e Epworth — frente ao exame do sono como referência. Para apneia moderada, a Escala de Epworth isolada teve sensibilidade de 47% e especificidade de aproximadamente 62%, desempenho inferior ao STOP-Bang (sensibilidade de 90%), o que reforça que ela funciona melhor combinada a outros sinais clínicos do que sozinha (Chiu HY et al., Sleep Medicine Reviews, 2016, DOI).
| Questionário | Sensibilidade (apneia moderada) | Especificidade (apneia moderada) | O que avalia |
|---|---|---|---|
| Escala de Epworth | 47% | ~62% | Sonolência subjetiva em 8 situações |
| Questionário de Berlim | 77% | 44% | Ronco, sonolência, pressão alta/IMC |
| STOP | 89% | 32% | 4 perguntas de rastreio rápido |
| STOP-Bang | 90% | 36% | STOP + idade, IMC, circunferência do pescoço, sexo |
Na prática clínica, o ideal é combinar a Escala de Epworth com outros dados — histórico de ronco, pausas respiratórias observadas por quem dorme ao lado, pressão arterial e circunferência do pescoço — antes de indicar um exame do sono, exatamente porque nenhum questionário isolado tem acurácia suficiente para fechar o diagnóstico sozinho. Revisão sistemática mais recente confirma que Berlim, STOP e STOP-Bang seguem sendo as ferramentas de triagem mais validadas em uso clínico, sempre como etapa anterior à polissonografia, nunca como substituto dela (Amra B et al., Oman Medical Journal, 2018, DOI).
Existe uma versão validada da Escala de Epworth em português?
Sim. A Escala de Epworth foi traduzida e validada para o português do Brasil (ESS-BR) em estudo com 114 pacientes submetidos a polissonografia e 21 controles saudáveis. A versão brasileira apresentou coeficiente de confiabilidade de 0,83 e distinguiu, com significância estatística, pacientes com apneia obstrutiva, roncadores primários e controles — com pontuação mais alta nos pacientes com apneia do que nos roncadores primários, e destes em relação aos controles (Bertolazi AN et al., Jornal Brasileiro de Pneumologia, 2009, DOI). Ou seja: o teste que você responde em português já é uma versão cientificamente validada, e não apenas uma tradução livre do questionário australiano original.
Quando procurar um especialista depois do teste da Escala de Epworth
Vale agendar uma avaliação com um especialista em sono quando, além da pontuação elevada no teste, você observa:
- Ronco alto e frequente, relatado por quem dorme perto de você
- Pausas na respiração durante o sono percebidas por outra pessoa
- Cansaço ao acordar mesmo dormindo o número de horas recomendado
- Pressão alta de difícil controle ou já diagnosticada
- Dificuldade de concentração, irritabilidade ou sonolência ao dirigir
Esses sinais, somados a um ronco que já tem causa identificável, tornam a avaliação clínica ainda mais indicada — e não apenas o teste isolado. Se você já sabe que ronca mas não sabe por onde começar a investigar, vale ler também o guia sobre qual médico procurar para tratar ronco e apneia. Em alguns casos, a origem da sonolência e do ronco está numa alteração estrutural da mandíbula ou da maxila — situação em que a avaliação pode incluir também uma investigação sobre cirurgia ortognática como parte do tratamento. O Dr. Guilherme Lima atende pacientes com ronco e apneia na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Dr. Guilherme Lima: "A Escala de Epworth é um ótimo primeiro passo porque não custa nada e leva menos de dois minutos para responder. Mas vejo pacientes que chegam ao consultório achando que uma pontuação baixa significa que está tudo bem — e nem sempre é assim, principalmente em quem já se acostumou a dormir mal e não percebe mais a própria sonolência como algo fora do normal. O teste orienta a conversa inicial; quem confirma o diagnóstico é o exame do sono."
Perguntas frequentes sobre a Escala de Epworth
A Escala de Epworth substitui a polissonografia?
Não. Ela é um instrumento de triagem baseado na percepção subjetiva de sonolência, enquanto a polissonografia mede objetivamente os eventos respiratórios durante o sono. Uma pontuação alta sugere investigação; quem confirma o diagnóstico e a gravidade é o exame do sono.
É possível ter apneia com pontuação baixa na Escala de Epworth?
Sim. Estudos mostram que pacientes com apneia podem subestimar a própria sonolência, principalmente quando já se acostumaram a dormir mal há anos. Por isso, ronco alto, pausas respiratórias observadas por quem dorme ao lado e outros sinais clínicos devem ser considerados mesmo com pontuação baixa no teste.
Quanto tempo leva para responder o teste?
Cerca de dois minutos. São apenas oito perguntas, cada uma pontuada de 0 a 3, e o resultado final é a soma simples das oito respostas.
A Escala de Epworth serve para crianças?
Existe uma versão adaptada para crianças e adolescentes (ESS-CHAD), já traduzida e validada linguisticamente para o português do Brasil, mas seu uso e interpretação em pediatria devem ser conduzidos por um especialista, já que os padrões de sonolência infantil diferem dos observados em adultos (Nunes ML et al., Sleep Science, 2022, DOI).
O que fazer depois de fazer o teste?
Guarde a pontuação e leve para uma consulta com um especialista em sono, junto com informações sobre ronco, pausas respiratórias percebidas por quem dorme com você e histórico de pressão alta. Esses dados juntos orientam a indicação — ou não — de um exame do sono.
Escrito e revisado por Dr. Guilherme Lima — Cirurgião Bucomaxilofacial (CRO-RJ 38327). Pós-graduado em Medicina do Sono pelo ISono/EPM-UNIFESP e em Tratamento do Ronco pelo Instituto Hospital Israelita Albert Einstein. Graduado pela FO-USP. Mestre em Ciências Médicas pela UERJ. Atende na Barra da Tijuca — Av. das Américas, 2901, Sala 504, Rio de Janeiro.
Publicado em: agosto/2026 | Revisão clínica: agosto/2026
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