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07 de outubro de 202610 min

DTM e apneia do sono: qual é a relação com o bruxismo?

Entenda a relação entre DTM, bruxismo e apneia do sono, os limites das evidências e os cuidados na escolha de placas e aparelhos intraorais.

Conteúdo revisado por Dr. Guilherme Lima — CRO-RJ 38327. Cirurgião bucomaxilofacial, membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Sono. As informações deste artigo são educativas e não substituem avaliação individualizada.

Dor na mandíbula, apertamento dos dentes e ronco podem coexistir, mas não são o mesmo problema. A disfunção temporomandibular (DTM), o bruxismo do sono e a apneia obstrutiva do sono (AOS) precisam ser avaliados separadamente, mesmo quando aparecem na mesma pessoa. Identificar essa combinação importa especialmente antes de indicar uma placa ou um aparelho intraoral.

Uma revisão narrativa e crítica de Cibele Dal Fabbro e colaboradores, publicada em 2024 no Journal of Prosthodontics, discute o manejo de adultos com bruxismo do sono e AOS concomitantes. O estudo ajuda a orientar cuidados clínicos, mas não é uma revisão específica sobre DTM nem demonstra que a apneia causa DTM. A seguir, distinguimos o que o artigo sustenta das implicações para quem tem dor ou limitações na mandíbula.

DTM, bruxismo e AOS: entenda as diferenças

  • DTM: conjunto de condições que envolvem os músculos da mastigação, a articulação temporomandibular (ATM) e estruturas relacionadas. Dor, dificuldade para movimentar a mandíbula ou travamento merecem avaliação; um estalo isolado não define, por si só, uma DTM dolorosa.
  • Bruxismo do sono: atividade dos músculos mastigatórios durante o sono, que pode incluir ranger ou apertar os dentes. Não é sinônimo de DTM, e sua presença não significa necessariamente doença ou necessidade de tratamento.
  • AOS: episódios repetidos de obstrução parcial ou completa da via aérea durante o sono. Pode provocar fragmentação do sono e queda de oxigenação. Ronco é um sinal possível, mas não confirma o diagnóstico.

Assim, uma pessoa pode ter DTM sem bruxismo, bruxismo sem dor e AOS sem queixa mandibular. Quando essas condições coexistem, o plano precisa considerar tanto a função e o conforto da mandíbula quanto a respiração durante o sono.

O que a revisão de 2024 realmente mostra?

Os autores descrevem a coexistência de bruxismo do sono e AOS em grupos de adultos estudados, mas ressaltam que a associação não está definitivamente demonstrada e falta evidência de uma relação sólida de causa e efeito. Os resultados variam conforme a população, o método de diagnóstico e as características de cada paciente.

Alguns estudos observaram atividade dos músculos mastigatórios próxima de eventos respiratórios e microdespertares. Existe a hipótese de que essa atividade possa participar da recuperação da abertura da via aérea em certos pacientes. Entretanto, isso não permite afirmar que todo bruxismo é uma defesa contra apneia, nem que tratar AOS eliminará o bruxismo ou resolverá a DTM.

A revisão é narrativa e crítica, não sistemática. Reúne estudos com métodos diferentes, alguns pequenos ou exploratórios. Seus achados apoiam uma avaliação individualizada e colaborativa, não uma receita única para todos os pacientes.

Bruxismo pode proteger a via aérea? Mecanismos propostos

A atividade rítmica dos músculos mastigatórios (RMMA) é um dos sinais instrumentais usados para estudar o bruxismo do sono. Sua ocorrência pode estar próxima de microdespertares, mudanças autonômicas e ativação de músculos supra-hióideos. Na hipótese de proteção respiratória, a ativação mandibular ajudaria a estabilizar a mandíbula e permitir tração sobre o osso hioide, favorecendo a reabertura da via aérea em determinados episódios. Esse mecanismo é proposto, não uma função protetora comprovada em todos os pacientes.

Também se discute a posição transitória da mandíbula e a participação da musculatura relacionada à língua e à faringe. Não é correto equiparar a contração mastigatória a um avanço mandibular terapêutico contínuo: episódios de RMMA não reproduzem necessariamente o efeito de um aparelho projetado para tratar AOS.

Sequência temporal não demonstra causa e efeito

A revisão de Dal Fabbro descreve estudos que classificam os episódios como T1, quando apneia ou hipopneia precede o bruxismo, e T2, quando ocorre o inverso. A sequência T1 predominou em alguns estudos, mas as janelas de análise variaram de segundos a minutos. Isso dificulta a comparação e não prova que a contração foi responsável por encerrar a obstrução.

O limiar de despertar respiratório é a intensidade de estímulo respiratório necessária para provocar um despertar. Sua variação pode ajudar a explicar por que pacientes apresentam padrões diferentes de microdespertares e atividade mastigatória. A proximidade entre esses eventos, por si só, não demonstra redução da hipóxia nem benefício clínico do bruxismo.

Em estudo observacional de Nowacki e colaboradores (2025), o grupo com baixo limiar de despertar apresentou índice de episódios de bruxismo (BEI) maior do que o grupo com limiar alto: 6,06 versus 4,54 episódios/h (p = 0,04). A hipótese de término de eventos respiratórios foi discutida pelos autores, mas o desenho observacional não demonstra que o bruxismo tenha encerrado a obstrução ou evitado dessaturações. Consultar o estudo.

Um resumo de congresso de Simmons e Prehn (2019) descreveu, por monitorização de pressão esofágica e atividade muscular, um padrão inverso entre esforço obstrutivo e bruxismo em cerca de dois terços dos pacientes. A pressão esofágica permite observar variações de esforço respiratório; o padrão descrito é um achado exploratório. Por se tratar de resumo de congresso, não de artigo completo com métodos avaliáveis em detalhe, seu peso é menor e ele não comprova proteção causal.

Como interpretar uma associação inversa

A revisão cita o pequeno estudo caso-controle polissonográfico de Cid-Verdejo e colaboradores, publicado em 2024, com associação inversa entre bruxismo e AOS. A análise descrita excluiu atividade associada a despertares, uma limitação relevante porque esses eventos frequentemente acompanham o bruxismo.

Um odds ratio (OR) abaixo de 1 representa menor chance estatística do desfecho na comparação estudada; não corresponde automaticamente a uma redução do risco individual. Estudos observacionais não estabelecem causalidade e podem sofrer influência da seleção da amostra, de fatores de confusão e dos critérios de registro. Portanto, esse resultado não justifica estimular o apertamento nem deixar a AOS sem tratamento.

Estudo de 2025: os eventos respiratórios não foram mais curtos

Przegrałek e colaboradores (2025) analisaram polissonografias de 241 pessoas com AOS leve ou moderada. Na comparação com BEI ≥ 2, os participantes com bruxismo apresentaram duração média de hipopneias maior (25,88 versus 23,28 segundos; p = 0,001), assim como a duração combinada de apneias e hipopneias (24,04 versus 21,97 segundos; p = 0,004).

O estudo também encontrou menor índice de dessaturação de oxigênio no grupo com bruxismo, mostrando que diferentes desfechos podem apontar em direções distintas. Os resultados contradizem a hipótese de que o bruxismo encurta os eventos respiratórios. A possibilidade de benefício em situações específicas permanece uma hipótese, não uma conclusão estabelecida por esse estudo. Consultar o estudo original.

Por que investigar o sono em quem procura atendimento por DTM?

A relevância clínica está em não deixar um possível distúrbio respiratório passar despercebido enquanto se trata apenas o desconforto mandibular ou o desgaste dos dentes. Dor ao acordar e cansaço muscular têm várias causas; isoladamente, não diagnosticam apneia.

Durante a consulta, vale relatar:

  • Ronco frequente, pausas respiratórias observadas ou despertar com engasgos.
  • Sono não reparador, sonolência durante o dia ou fadiga persistente.
  • Ranger de dentes percebido por outra pessoa, apertamento e desgaste dentário.
  • Dor na face ou mandíbula, limitação de abertura e travamentos.
  • Uso de placas, aparelhos, CPAP e medicamentos, além de mudanças recentes nos sintomas.

Questionários ajudam a identificar risco, mas não substituem a avaliação nem o exame necessário para confirmar AOS. Saiba mais sobre o diagnóstico da apneia do sono.

Placa para bruxismo e aparelho para apneia são diferentes

Placa oclusal: proteção dentária não é tratamento respiratório

A placa oclusal pode ser indicada para proteger dentes e restaurações e, em situações selecionadas, integrar o manejo de queixas mandibulares. Ela não é equivalente a um tratamento para AOS e não garante que o bruxismo deixe de ocorrer.

A revisão relata que, em alguns estudos, placas oclusais foram associadas à piora de índices respiratórios em determinados pacientes. Os resultados não são uniformes: isso não significa que toda placa cause ou agrave apneia. Significa que suspeita ou diagnóstico de AOS deve ser considerado na indicação, no desenho do dispositivo e no acompanhamento.

Se você já usa placa e tem ronco, engasgos ou piora do sono, procure reavaliação. Não ajuste o dispositivo nem interrompa um tratamento prescrito por conta própria.

Dimensão vertical, posição mandibular e espaço retrolingual

Um dispositivo que aumenta a dimensão vertical de oclusão — a separação entre as arcadas — sem avanço mandibular pode modificar a posição da mandíbula, da língua e o espaço disponível atrás da língua. Dependendo da anatomia e do desenho da placa, uma rotação mandibular para baixo e para trás é uma possibilidade biomecânica. Não é um efeito inevitável de toda placa nem pode ser previsto apenas pela espessura do material.

A cautela é maior quando há suspeita de obstrução respiratória, retrognatia ou outros fatores anatômicos relevantes. O objetivo não é abandonar placas para DTM ou proteção dentária, mas avaliar a respiração antes da indicação e acompanhar a resposta individual.

Ensaio clínico com placa estabilizadora: aumento pequeno do IAH

No ensaio cruzado randomizado de Nikolopoulou e colaboradores (2013), dez adultos com AOS realizaram três noites de polissonografia com placa estabilizadora maxilar e três noites sem ela. O IAH médio foi 15,9 ± 6,4 eventos/h sem placa e 17,4 ± 7,0 eventos/h com placa; a comparação das médias das condições alcançou significância estatística (p = 0,025).

Os próprios autores destacaram que o tamanho do efeito foi pequeno, reduzindo a relevância clínica do achado. A amostra de apenas dez pessoas limita a generalização. O resultado indica um sinal de cautela e necessidade de monitoramento, não uma prova de que todas as placas agravam AOS ou de que todo paciente terá a mesma mudança. Consultar o estudo original.

Elevação de 6 mm sem avanço: variação individual não é piora uniforme

Em outro estudo de Nikolopoulou, Naeije e colaboradores (2011), 18 adultos foram avaliados com um dispositivo que aumentava a distância interincisal em 6 mm, sem protrusão mandibular. Nove apresentaram aumento numérico do IAH, mas apenas dois ultrapassaram o limiar definido pelos pesquisadores para uma mudança detectável; não houve diferença estatisticamente significativa do IAH no conjunto da amostra.

Por isso, resumir o achado como “metade dos pacientes piorou” sem explicar esses critérios seria enganoso. A diferença entre flutuação do exame e mudança relevante reforça a necessidade de avaliar e monitorar cada paciente.

Aparelho intraoral de avanço mandibular

O aparelho intraoral de avanço mandibular é projetado para posicionar a mandíbula à frente e favorecer a passagem de ar. Sua indicação depende do diagnóstico e da gravidade da AOS, das condições dentárias e periodontais, da função mandibular e da tolerância do paciente.

Em alguns estudos analisados na revisão, esse dispositivo reduziu também a atividade de bruxismo. Esse possível benefício não o transforma em tratamento universal para bruxismo ou DTM. Dor mandibular, desconforto muscular e alterações da mordida exigem acompanhamento. Ter DTM não define sozinho se o aparelho poderá ou não ser usado: é preciso avaliar o quadro e ajustar a conduta individualmente. Leia sobre adaptação e efeitos colaterais do aparelho intraoral.

Qual é o papel do CPAP?

O CPAP mantém a via aérea aberta por pressão positiva e é uma opção central no tratamento da AOS. A revisão descreve redução de atividade de bruxismo em parte dos pacientes com as duas condições tratados com CPAP, mas a resposta varia e não comprova que o CPAP trate a DTM.

Quando a proteção dentária também é necessária, a equipe pode avaliar o uso de placa em conjunto com CPAP, em vez de deixar a apneia sem tratamento. A escolha deve considerar controle respiratório, conforto, adesão e saúde bucal. Veja as opções de tratamento da apneia do sono.

Como avaliar e acompanhar as duas condições?

  1. Avaliar a queixa mandibular: caracterizar dor, função, dentes, músculos e articulações, sem atribuir automaticamente os sintomas ao bruxismo.
  2. Investigar a respiração durante o sono: encaminhar para avaliação em medicina do sono quando houver suspeita de AOS.
  3. Selecionar o exame adequado: a polissonografia ou o teste domiciliar, quando indicado, avaliam a respiração. Para investigar atividade de bruxismo, podem ser necessários registros musculares específicos; nem todo teste domiciliar inclui esses canais.
  4. Definir um plano integrado: escolher dispositivos e outras medidas conforme os diagnósticos, evitando tratar uma queixa à custa da outra.
  5. Reavaliar: acompanhar sintomas mandibulares, tolerância ao tratamento e controle da AOS. Melhorar o ronco ou a dor não confirma, sozinho, normalização do exame do sono.
Paciente monitorado durante exame do sono
O exame deve ser escolhido conforme a suspeita clínica e os sinais que precisam ser registrados. Imagem ilustrativa do acervo do site, não uma figura do estudo.

O que não podemos concluir

  • Que AOS seja a causa de toda DTM ou de todo bruxismo.
  • Que ranger os dentes confirme apneia ou proteja necessariamente a respiração.
  • Que toda placa oclusal piore o sono.
  • Que CPAP ou avanço mandibular curem a dor na ATM.
  • Que medicamentos ou toxina botulínica substituam o tratamento respiratório. A revisão aponta lacunas de evidência para seu uso na coexistência de bruxismo e AOS.

Quando procurar avaliação?

Dor ou travamento mandibular, desgaste dentário e sintomas de sono merecem uma avaliação que considere o conjunto das queixas. Se houver sonolência ao dirigir, evite dirigir e procure orientação médica. Para escolher entre CPAP, aparelho intraoral e outras opções, consulte também o guia qual tratamento é indicado para minha apneia.

Referência científica e limites deste texto

Dal Fabbro C, Bornhardt-Suazo T, Landry Schönbeck A, de Meyer M, Lavigne GJ. Understanding the clinical management of co-occurring sleep-related bruxism and obstructive sleep apnea in adults: A narrative and critical review. Journal of Prosthodontics, 2024. DOI: 10.1111/jopr.13966.

Cid-Verdejo R, Domínguez Gordillo AA, Hallal-Peche F, Ardizone García I, Martínez Orozco FJ. Is there an association between sleep bruxism and obstructive sleep apnea? A case-control polysomnographic investigation. Sleep Medicine. 2024;114:1–7. Resultado discutido na revisão de Dal Fabbro citada acima.

Nikolopoulou M, Ahlberg J, Visscher CM, Hamburger HL, Naeije M, Lobbezoo F. Effects of occlusal stabilization splints on obstructive sleep apnea: a randomized controlled trial. Journal of Orofacial Pain. 2013;27(3):199–205. DOI: 10.11607/jop.967.

Nikolopoulou M, Naeije M, Aarab G, Hamburger HL, Visscher CM, Lobbezoo F. The effect of raising the bite without mandibular protrusion on obstructive sleep apnoea. Journal of Oral Rehabilitation. 2011;38(9):643–647.

Nowacki D e colaboradores. The effect of the arousal threshold on sleep bruxism intensity in coexisting sleep apnea and sleep bruxism: a polysomnographic study. Scientific Reports. 2025;15:17044. DOI: 10.1038/s41598-025-01687-8.

Przegrałek J e colaboradores. Sleep Bruxism as a Protective Factor in the Mild and Moderate Obstructive Sleep Apnea: A Polysomnographic Study. Journal of Sleep Research. 2025. PMID: 40964869.

Simmons JH, Prehn RS. 0442 Sleep Bruxism Protects the Airway. SLEEP. 2019;42(Suppl 1):A178. Resumo de congresso; evidência preliminar.

Os estudos discutidos aqui são de adultos. Seus resultados não devem ser extrapolados automaticamente para crianças: bruxismo associado a sinais de obstrução respiratória na infância requer avaliação pediátrica específica.

Este texto apresenta uma síntese educativa original, não uma tradução ou reprodução do artigo. A discussão sobre DTM contextualiza os cuidados mandibulares; o foco da publicação científica é a coexistência de bruxismo do sono e AOS em adultos. As informações não substituem avaliação individualizada.

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